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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sistema do Caos - I

                - Não é que eu não goste da sociedade, simplesmente acho que ficou deturpada demais  - ele disse.
                - Mas isso lhe dá o direito de tirar a vida de alguém? É essa sua desculpa?

                - ... eu não sou um herói, não sou justo. Não me venha falar de justiça em tempos como esse . Tudo o que acreditamos  um dia, todas aquelas regras não existem mais, acorde para o presente. Não faço isso para melhorar o mundo, faço porque ninguém mais irá faze, faço por mim.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Lamentações – mais um delírio de Jack Boy

"Deixe-me ser claro, sei pouca coisa, menos ainda sobre as pessoas próximas de mim."
Lightman

Talvez realmente tenha sido isso que me afastou de todos, talvez seja meu receio de me relacionar e perder. Neste ponto você pode estar me achando covarde, mas amigo, é uma droga ter que aprender a esquecer quem você amou por algum tempo. Talvez algum dia alguém compreenda o turbilhão de sentimentos e emoções que povoam meu coração confuso. Não chamaria de poesia, não diria que sou metade crônica e metade poesia, na verdade estou bem longe disso. Eu quis explorar a vida e fui mais além do que podia. Agora tudo o que sobrou para mim foram as memórias, no dia a dia fico robotizado e ao anoitecer eu reescrevo o passado, cada dia de uma forma diferente. Se a vida fosse o som de uma guitarra com uma distorção pesada e contínua seria mais simples, mas não é. Quando você é pequeno dizem que você tem o mundo para ganhar, mas isso não é verdade. Não que eles mentem, mas tem que te dar sonhos (ou ilusões como queira), para você viver. Você cresce e aprende da pior forma possível que a vida não é boa. Quando criança sonhava com a felicidade, quando descobri as palavras quis mudar o mundo com elas, mas você percebe que não tem como e elas servem apenas para expressar minha angústia. Não, não desista de tudo agora eles dizem, ainda é cedo, você ainda é jovem... pode até ser, mas isso aqui não é feito para você vencer, jovem ou velho, neste mundo o destino é igual.
 E todos os seus problemas não são nada comparados aos dos outros eles vão dizer, mas onde está o grande mal? E a quem se pode culpar pelos fracassos, me desculpe, mas não vou aguentar sozinho. E dizem que o tempo irá curar as feridas, mas não é real, o tempo vai ficar te lembrando que você fracassou e uma garrafa de rum não vai aliviar a dor eternamente. Em último caso culpe o sistema, culpe os políticos, culpe as autoridades, afinal temos que mascarar nossa covardia. Somos muito civilizados para irmos à luta como nossos antepassados, somos civilizados demais para sofrer fisicamente, deixar nossa alma definhar condiz mais com este século. Somos modernos, não precisamos conhecer bem nossos amigos, temos vários para conhecer superficialmente. Somos modernos, temos robôs para nos fazer companhia. Somos modernos, pagamos pela ilusão vista na televisão. E de pensar que eu iria lamentar pela minha incapacidade de demonstrar meus sentimentos, mas para quê, somos modernos demais para perceber amor nos gestos simples. Eu lamento por sermos modernos demais, lamento por tanto avanço... nesses tempos onde tudo é tão  moderno... minha dor é cada dia mais real, e meus delírios são contínuos.
 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tragédia Fatal - 08

A morte e nada mais

Se me permitem de agora em diante passo a narrativa para os momentos finais. É claro que me pergunto o que pensa o leitor, estaria torcendo por mim? São tantas indagações que irei deixar para lá, pois senão elas viriam a ocupar toda a extensão que deveria ser dedicada a história. Outro ponto que me tira desta condição de querer saber, é o simples fato de que nada irá mudar o rumo de minha história.

O tempo passa, as revelações acontecem e o fim jaz a porta. A luz se acendeu, de forma tardia fechei os olhos tentando evitar a claridade. Ora, ora... Conheço essa voz, e minhas investigações não levaram até ele, ainda bem que morderam a isca. Como murmúrios eles falavam, prejudicado pelo nervosismo não conseguir ouvir, agora sim era ligeiramente audível.

- Mike, você está péssimo. – Yuri era quem começava a falar, tinha um cigarro em mãos e fumava vagarosamente. – Tentamos entrar em acordo antes, será que nessa condição o ambiente vai favorecer o “eu aceito”?

Robert o da voz conhecida desatava a mordaça. Senti um incomodo forte, mas logo o alivio, minha boca estava livre daquele desconforto. Qualquer um gritaria chamando por socorro desesperadamente, se fosse antes eu faria igual. Nada de vizinhança, nada gritos, afinal ela me chamava de forma doce e encantadora. Em silêncio encarei Yuri, depois me virei um pouco vislumbrando a face marrenta de Robert. Sorri, decretando meu triunfo sobre cada um deles, ambos que estavam presente e aquela máfia que agia sendo encobertada.

- Vamos, me matem! O que esperam? – A voz saia em tom alto, era o som da soberania. – Nada podem fazer além, me matar é a vingança é tudo o que resta, afinal tenho a certeza que nada do que fizerem irá mudar o destino de...

Agilmente fui agarrado na garganta, Yuri apertava ela com uma força terrível. Sou dos que acredita na capacidade humana além do nosso entendimento, sendo assim, acho plausível dizer que a raiva tornou a força dele sobre humana. Sua face era horripilante, franzia o rosto e cerrava os dentes até que, desistiu de seguir seu impulso emocional virou-se dando as costas para mim, não houve tempo para me recuperar, um soco atingia certeiro em minha face. Gritei de dor, mas nada daquilo me fazia sentir medo. Voltei a olhar para ele e um sorriso ensanguentado se exibiu em minha boca.

- Aproveite, eu sou sua ultima diversão... – Gritei remexendo na cadeira.

- Esquece você quem sou não é Mike? – O redator chefe falava. – Sabe muito bem que posso tirar aquela matéria do ar no caso de você sumir, tentei conversar, mas nada feito. Dane-se você, bancando um a de herói nesse mundo de cobras... Já sabe o final, do seu conto de fadas? Robert dê um fim nele e vamos. – Se eu me importasse, a expressão dele me traria um pavor maior do que qualquer coisa antes me proporcionara, era sombrio e frio.

***

Na cidade de Belo Horizonte um jornalista que brigava por justiça. Do contrario de muitos ele não se vendera, seguiu seu sonho de infância, e dentre centenas, não milhares, ele renunciou o conformismo não desistindo de ir contra o sistema. Longe de ser o melhor jornalista investigativo, e seu feito é longe de mudar o mundo. Não faltou a Mike vontade de valer o seu viver, amou, sorriu, chorou, brincou quando criança. Trocou o futebol por livros, investiu fundo no que queria. Seu nome seria lembrado por uns que com ele conviveram, sendo em cotidiano físico ou digital. Esquecido pela grande maioria, o que não importar, algo importa depois que se morre?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tragédia Fatal - 07

O escuro familiar

- Claro Mike, estou deixando tudo como planejamos. – disse Fernando.

- Obrigado, lembre-se que tudo pode acontecer, mas ninguém terá acesso a você. Tudo que se deve fazer é seguir o combinado. – Falei com calma.

No decorrer dos fatos tratei de convocar para uma pequena reunião com os meus superiores no jornal. Lá expôs todos os documentos provando a veracidade do que dizia, enquanto isso explicava e gesticulava. Aquela denuncia movimentaria uma grande investigação e prenderiam inúmeras pessoas envolvidas, e também traria novos ares a empresa, voltando a ter maior credibilidade tanto na revista quanto no jornal.

- Esplêndido! – Antecipou-se Carlos – Vai para a primeira capa da revista desse mês, e ganhará reforço no jornal onde deixaremos algumas noticias que instiguem as pessoas a procurar por maiores informações.

- Não. – O “não” suou como um grito interrompeu Yuri. Eu não deixei de sorrir, ao ver sua face, tinha medo nos olhos. Tentando contornar ele começou a explicar. – Acho que tudo pode ser maior, poderíamos criar uma situação de impacto.

Divertir-me, ao que eu já sabia Yuri tinha sido pago, e recebe todo mês dinheiro vindo dessa ilegalidade. – nem passou a minha cabeça o fato de ser uma vingança contra ele. - Foi incrível como as coisas foram se encaixando, o redator chefe era ciente de toda trapaça feita, e encobertava para tirar proveito financeiro. Carlos que gostava mais de Yuri passou a responsabilidade da publicação para ele, como por mim já era esperado, sendo assim, a matéria estava pronta era apenas soltar a bomba e esperar as reações vindouras.

***

Horas depois estava de volta ao meu cantinho de sossego, mas desta vez não foi como antes. Como dito antes, minha casa é em um local calmo – lê-se: pouco deserto. – Lá chegando, adentrei normalmente e tranquei a porta principal, tudo parecia perfeitamente normal. Agora dava curtos passos olhando a volta com um ar despercebido, estava cansado e não queria nada mais do que uma boa ducha para relaxar, seguido de uma ótima noite de sono. Essa anseia de descansar, tão logo se dissipou. Como uma nevoa que não resisti ao vento, tornando tudo mais claro e vistoso.

Recobrei os sentidos, estava sentado em uma cadeira o local tremendamente escuro, entretanto familiar. Estou no escritório de minha casa. Uma forte dor correu minha cabeça, com uma reação normal levei a mão até onde doía. Na verdade, tentei. As mãos assim como os pés estavam devidamente preso. Municiei um grito, o mesmo barrado, esse eu tinha certeza que não funcionaria. No desespero quase não se pensa, apenas se debate e quer que algo de bom aconteça. Vendo que nada adiantaria ficar a me contorcer e soltar murmúrios abafados, resolvi me silenciar e agir de formar racional e fria, afinal não está morto já dizia muito. E a morte às vezes é atraente aos olhos.

Pouco antes de entre na porta que dava acesso a sala e as demais partes da casa, por trás uma forte pancada irrompeu em minha cabeça. Forte o bastante para me deixar desacordado durante aproximadamente 40 minutos. O arremate do agressor foi feito em conjunto com um galho de árvore normalmente utilizado como lenha. Após isso tiveram eles o cuidado de atear fogo no objeto em uma tentativa de queimar provas.

Uma vez inconsciente o trabalho deles seria rápido e sem resistência. Fizeram como ordenado, me arrastaram para dentro e me fizeram cativeiro em minha própria residência. Quando acordei pude entender, para eles me matar de nada serviria, negociar é mais inteligente, e que maneira melhor para se obter uma resposta favorável quando a vida está em jogo? Realmente devo reconhecer um ótimo jogo, as regras desse game davam inveja. Porém, os jogos mesmo que sejam feitos para perder nos possibilita a encarar e criar um ambiente favorável, nesse ponto é que vem o escape.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tragédia Fatal - 06

Marcas invisíveis

“... uma das coisas boas das histórias é como o tempo passa depressa quando não há nada de muito interessante acontecendo. Na vida real é diferente, e talvez isso seja bom.”
Stephen King


“... uma das coisas boas das histórias é como o tempo passa depressa quando não há nada de muito interessante acontecendo. Na vida real é diferente, e talvez isso seja bom.”
Stephen King
Ao olhar para minha mão Anna viu a rosa azul, tendo ciência do que aquilo representaria se houvesse oportunidade, o choro seguido de soluços lhe veio com uma fúria impetuosa, o arrependimento correu por todo o seu corpo lavando a sua alma, porém, não o suficiente para nos unir novamente.



Peço que deixem o tempo passar um pouco, não irei esconder nenhum fato, mas sou incapaz de traduzir em palavras o quão... eu me senti naqueles primeiros minutos. Como dito pouco tempo depois estava em minha casa, sim havia outra além da que Anna e eu morávamos. Situada nas proximidades da lagoa da Pampulha no bairro Garças, era uma casa bonita e espaçosa, entretanto eu gostava dela por causa do silêncio, que de tão profundo era possível escutar o som das folhas a balançar quando guiadas por rajadas de ventos.
A rosa azul caída sobre a mesa onde eu costumava trabalhar, os meus olhos seguiram a noite toda a finta-lá despercebidamente. – Uma longa noite, diga-se de passagem – O que sucedeu durante a noite tinha fortificado e reparado os danos causados por males passados, de forma surreal tudo voltava inúmeras vezes pior. O vazio aumentou drasticamente, os reparos cederam, um caos, tudo em ruína absoluta.
O dia amanhecia lindo, os pássaros vinham cantando, a aurora dispensa qualquer comentário, a natureza em equilíbrio aparente e eu distante nem percebi aquelas maravilhas. O dia se passou sem nenhuma mudança, o sábado foi completamente mórbido, onde migrei da cadeira para cama, da cama para o chuveiro, após olhar o nada pela janela, voltei a cama.
No domingo fiquei longo tempo olhando o teto, havia perdido completamente a noção do tempo. Senti fome, mas nada descia, me limitei a beber água. Quando escureceu novamente tive que encarar os fatos, e uma deles é que se nada fosse feito iria encontrar novamente Yuri. Peguei o telefone e liguei para o “chefe” que me atendeu e ouviu, sem revelar detalhes pedir para poder trabalhar da minha casa, ele não gostava da ideia, contudo se tratando de um de seus melhores empregados era melhor não correr riscos, permitiu pedindo que eu me reportasse a ele sempre que ocorresse alguma nova movimentação das minhas investigações.

***

Antes de Anna, como já dito, utilizava meu trabalho para fugir de mim mesmo, o que ficou ainda pior como era de esperar. Durante a semana que sucedia o acontecido, me isolei. Os contatos feitos eram extremamente necessários, em sua maioria assuntos de trabalho. Uns por telefone e em outros que era indispensável minha presença.
Na segunda fiquei a repassar minha investigação, retomando o rumo. Notei que minha capacidade de associar e ligar um ponto no outro estava mais afinada, percebi detalhes que tinha deixado passar antes. A pesquisa girava em torno do DETRAN, sendo mais especifico, dizia respeito às compras de carteira. Bom, não irei me aprofundar nesse ponto também, o que é importante saber é que onde há corrupção a gente “Grande” agindo. Fiscais, instrutores, policiais, investigadores e tantos outros que mal é possível dar dados cabíveis. – dadas as minhas limitações –
Interessante é que o mundo é sumamente pequeno, e uma surpresa terrível estava a me esperar. Acabei sendo soldado por um dos nomes envolvidos, ele me oferecia dinheiro em troca de silencio, a quantia era bem alta lembrando os números arrecadados por eles nessa trapaça. – por pessoa, uma única carteira pode valer 1500 reais apenas a prova pratica. – Rejeitei todas às propostas, ao telefone ele soltou um resmungo, parecia falar com alguém ao lado.
- Esse não é fácil como...
A ligação cessou, repousei o telefone sobre a mesa e fiquei a olhar o computador, tentando imaginar o que ou quem estaria por trás. Afinal, como eles conseguiram meu telefone? Contei mentalmente quantos sabia no fim obtive o total de quatro pessoas, sendo elas Carlos meu chefe, Yuri, Fernando que pouco será citado nesse relato podendo ganhar uma história depois de sua movimentada vida, o ultimo era eu, nem mesmo Anna sabia.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tragédia Fatal - 05

Sem argumentos

Embora tarde as pessoas não se recolhiam aos seus aposentos, especialmente nos fins de semana BH mostrava a razão do seu titulo de capital dos bares. É praticamente incrível e alguns acharão ser exagero, mas não, a cada esquina um bar, a cada esquina pessoas rindo alto e festejando sem motivos. A vida.
Subia a escada do edifício onde eu residia, estava munido de um sincero arrependimento promovido ao longo da noite, e comigo a rosa azul. Como morava no terceiro andar logo cheguei, e com as chaves na mão abri a porta de minha casa com o máximo de silêncio possível, seria uma linda surpresa para ela. E de certo me apoiaria a mudar, pois sempre esteve ao meu lado. Entrei e fechei a porta cuidadosamente, sem acender a luz dei um passo e espiei em volta, a casa estava aparentemente vazia.
Tinha convicção de que Anna não estava, foi quando ouvir um toque de celular que vinha do meu quarto. A música se demorou no ar. Foi quando me vi agindo por impulsos, colava meu corpo à parede de entrada da porta, ao olhar o chão, meio que por acaso vi roupas de homem e dela no chão do corredor. Aquilo foi um baque tremendo, os olhos se encheram de lagrimas. Mas, será possível? Não, Anna. O sofrimento começava, talvez antes da hora.
Subitamente abri a porta, os olhos encharcados sim, mas o rosto era vazio. Anna e Yuri pareciam dois adolescentes tentando esconder de seus pais que faziam sexo. Percebendo que de nada adiantaria tentar ocultar, Anna encobriu seus seios e me olhava assustada, tentava falar sem emitir sons. Ele por sua vez ficou inerte. Eu me virei e voltei a sair de minha casa, aos passos curtos e odiosos. Anna veio ao meu encontro dizendo que me amava, mas aquilo era culpa minha. Sem falar nada com ela, ganhei as escadas, depois as ruas e em seguida a noite.
Ao ler essa parte de minha vida você deve não acreditar, pode até ser que passe em sua mente. “Se fosse eu mataria os dois.” Sim, acho até razoável a ideia. Entretanto não tenho o direito de tirar a vida de ninguém, é como deixei claro, sou eu o culpado de tudo como dito por Anna. Sem contar que minha cabeça já estava moldada, o que aprendi na noite foi o suficiente para impedir que cometesse uma grande besteira. Afinal, a vida continua...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tragédia Fatal - 04

Casa Vazia

Os sentimentos que vieram a ficar danificaram as estruturas construídas com o tempo. Cada tijolo unido a outros elementos erguiam os muros, era estável, aguentaria as ventanias, seria superior as reviravoltas. Bem, ao menos foi o que sempre pensei. Desde criança fui ensinado que nada na vida é fácil, e sobravam exemplos, como a maior queda. Nunca foi um muro que caia, entretanto faltava mobília em minha casa. Meu irmão levado pelas circunstâncias da vida deixou um enorme vazio, indescritível.
Contudo, a vida segue e a tristeza passa, a saudade fica, as incertezas parecem nunca se dissipar. Vários desafios surgem ao meu caminho, no caminho de todos acredito. Ah Anna, se você soubesse o quanto depositei esperanças em ti, se soubesse do vazio o qual me encontrava antes de ti conhecer. Aquele abismo aparentemente sem escapatória, uma lama de desespero contido com o auxilio de minhas tarefas, executadas unicamente com o intuito de não me deixar só comigo mesmo.
O movimento das nuvens no céu me confundia, sempre querendo saber se elas se moviam, ou se a terra era quem ditava aquele mover. Ambas? Por que não havia pensado assim antes? Gostava das coisas em movimento, sempre gostei das voltas existentes na vida. Todavia, o meu circulo poderia parar ali, onde me sentia bem, no que tinha esperança que fosse a felicidade. Logo, outra vez o vazio, estava de volta a minha casa vazia, sem mobílias e com falhas estruturais quase irreversíveis, pronta para desabar.
- Não importa o que aconteça, eu sempre estarei aqui por você. Eu sempre estarei aqui por você. Sempre...Milhas e milhas, de palavras vagas. – Se envolva em mim, eu sempre estarei aqui...
***
Aqueles óculos davam-lhe o ar de inteligente, realçado pelo modo o qual se vestia e a pasta que fazia tipo empresário. Sempre elegante e cordial era difícil não gostar dele no primeiro instante. A qualquer instante que o olhávamos parecia sorrir sincero, outras querendo esconder o que eu nunca soube, certamente guardava o porquê em sua caverna interior, onde até ele sentia dificuldade em chegar.
Antigamente, no colégio, transparecia alegria, era popular e brincava com todos. Bem visto? Nem sempre, há que ressaltar a existência de pessoas que não gostavam ou nem estavam aí para ele, eu me encaixava perfeitamente na segunda. Estudamos na mesma classe e só falávamos o necessário um com o outro, ele primeiro da sala, já eu alguém que gostava de coisas “estranhas” e nunca almejei ser primeiro embora não faltasse capacidade (segundo os professores).
Certa vez fui escolhido como orador da turma, afinal minhas redações superavam a média, os professores até faziam algumas piadas dizendo “Um gênio que não aproveita o potencial nos estudos.” O único a defender o meu ideal era Tiago professor de literatura, dizia que eu teria aprendido com Fernando Sabino, ou melhor, Eduardo. “Mike parece ter aprendido com Fernando Sabino, onde fala do escritor renunciar a tudo.” E sorria com sua observação, eu ouvia aparentemente alheio, no fundo aquilo significava muito por minha admiração ao escritor mineiro.
Por ironia do destino, algo que recuso acreditar, estamos a trabalhar no mesmo lugar, diferentes cargos e uma relação de coleguismo tão distante quanto antes. Eu um jornalista investigativo e escritor, ele por sua vez, exibia seu status de redator chefe.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tragédia Fatal - 03

O Outono


As horas passavam vagarosamente, sendo ainda 22:32. A caminhada longa, porém uma subida gostosa que embalou a frase do cronista Rômulo Paes “Minha vida é esta, subir Bahia, descer Floresta”. Uma brisa suave soprava, pintando o momento com tons verdes das árvores a dançar, exibiam uma harmonia intensa lembrando melodias de Beethoven. Uma magia natural, de beleza indiscutível, de poesia sem fim...
“As folhas mortas pelo chão da outra estação ainda são bonitas, ainda são perfeitas."
Jay Vaquer



O costumeiro era eu chegar a minha casa nas sextas após o começo da madrugada. Dessa vez não fiquei até muito tarde e apertei o passo, pois queria me valer dos ensinamentos da noite. Julgava ter aprendido bastante dentro de pouco mais de uma hora. Os vizinhos já velhos que tanto me ensinaram em uma gostosa conversa, não precisaram contar qual era o segundo rumo de uma vida a dois. Bastava olhar para eles, Marta e Luiz tinham respectivamente 56 e 52 anos, e viviam como se fossem eternos namorados.
Continuei a subida atento a tudo em volta, notei que o bar estava bastante movimentado, pessoas dançando ao som de música sertaneja. Outros se encontravam no restaurante ao lado onde servem diversas massas por um preço bem acessível. A cafeteria por sua vez mais vazia, poucas pessoas procuram lugares calmos e com um bom jazz, querem mais é sentir o calor humano, e esse sentir todos entendem.
O outono sempre foi parte importante de minha vida, nele que aprendi a gostar das cores, a ficar em casa quieto e ter interesse pela leitura. Quando criança costumava olhar as mudanças climáticas pela janela de meu quarto. As folhas caiam das árvores, e com aquilo aprendi que nada durava para sempre. Hoje ao rever a cena me senti frágil, como se o tempo já estivesse me consumindo, assim como consumiu a folha que vi antes e como certamente irá consumir a de hoje.
***
No bar todos riam brindando uma vã felicidade que passará quando estiverem sozinhos no escuro de seus quartos. Stela, porém havia deixado o lugar no mesmo momento que eu. Robert sempre passava da conta, mesmo assim não deixou de notar que Stela e eu tínhamos saído aparentemente juntos. Certamente supôs que estaríamos dividindo uma cama durante a noite toda, assim não precisaria cumprir com seu papel naquela noite, seus serviços estavam dispensados até segunda ordem. Sentiu – se aliviado, pois aquela já era a sétima noite que eu o acompanhava, no entanto nunca havia sequer tocado os lábios de outra mulher que não fosse Anna.
Stela resolveu voltar ao bar alguns minutos depois, acreditava já ter ficado fora tempo suficiente para que eu chegasse em casa. No bar seu semblante era triste, tinha enxugado as lagrimas tentando disfarçar sem ter resultado. Ao vê – lá Robert teve um curto clarão em sua mente, recuperando os sentidos de modo assustador. Correu até ela perguntando com tom alterado: “Onde está Mike?” Antes dela terminar a resposta, ele tirou de seu bolso o celular e apressadamente procurou na agenda pelo nome de Yuri, efetuou a ligação que não pode ser ouvida no bar por causa dos altos volumes.
Tragédia Fatal passará por um período sem postagens, voltando após quinze dias. Aos leitores que acompanham deixo meus sinceros agradecimentos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tragédia Fatal - 02

A Rosa Azul







Quando se fala em “por toda a vida” em um relacionamento conjugal, os mais velhos entre olham-se. Pensativo tentava compreender, até que abrir mão e resolvi perguntar. Eles não esperavam a questão vir a tona, suas faces voltaram a se encarar.
- Bem meu jovem, na vida a dois, se tem dois rumos. Um deles é após o casamento um aperto financeiro que dá para contornar, o tempo trará um filho, daí as coisas complicam... – O homem já vivido, começou seu relato com tais palavras. Olhou para cima fazendo uma pausa, notei que sua mão segurava a da mulher, fazendo singelas caricias. – Com o filho vem os verdadeiros problemas, não que seja algo ruim e até muito ao contrario, entretanto, se antes já estava difícil imagina agora com mais uma boca para alimentar. – Balançou a cabeça e prosseguiu. – Com isso o casal irá se ver cada vez menos, ele trabalhará mais. No fim das contas, chega um terceiro individuo que pode ser para um lado ou para o outro, que por falta de carinho acaba se entregando nos braços do outro.
Entrei em uma espécie de transe, fazia todo sentido. Quantas pessoas são escravas de suas vidas, perdendo o que é de suma importância, o amor. Percebi algo mais longe, eu sou um desses e se não tomar providências o meu casamento terá um fim igual.
O doce casal me olha, e quando vi pude entender aquele é o resultado, isso mesmo que eles queriam que eu percebesse a nua e crua realidade, estou indo ao abate e o alvo é a minha felicidade.
Eu andava nas ruas de Belo Horizonte com a rosa azul na mão, indo para minha casa, no caminho quase pude ouvir a voz da mulher dizendo, em tom claríssimo. “De nada adianta a rosa azul se ela não leva mudanças”.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tragédia Fatal - 01

O trago




"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós
."

Clarice Lispector


Repousei o meu corpo sobre a cadeira, ali acabava mais um dia de trabalho exaustivo. Foi quando um colega de trabalho me propôs uma ida ao bar, alegando ser dia, já que era sexta-feira. De início relutei, no fim acabei indo. É só não beber e voltar para a casa não muito tarde.
Lá chegando, Robert o colega de trabalho logo avistou alguns conhecidos seu. Eles o chamavam com a mão, sem perca de tempos ele foi até eles e me levando junto. Tratou de me apresentar a todos, na maioria mulheres bonitas, bem vestidas e desacompanhadas. Sentei-me após os comprimentos. Todos conversavam em tom pouco alto, riam, se entre olhavam, bebiam, e quando acabava, nova rodada, e se serviam.
Notei apenas quando ela já estava sentada ao meu lado. Uma mulher que aparentava ter seus 32 anos, morena, de olhos escuros e um cabelo preto liso.
- Você está muito quieto, por que não bebe um trago comigo?
O sussurro penetrou em meu ouvido, ameaçadoramente sensual. Ela por sua vez estendeu o copo de conhaque. Peguei sem pensar, olhei-a e sorri. A mulher levou sua mão para minha cintura me envolvendo.
O conhaque já estava sendo apreciado, virei, e logo peguei outro.
Conheci Stela de uma forma pouco diferente. Após transarmos loucamente no apartamento dela, foi onde dissemos as primeiras palavras, e onde me bateu o arrependimento. Eu tinha mulher... Traição. Eu que tanto abomino. Droga. Levantei subitamente da cama, ela me chamava eu não lhe dava ouvidos, me sentia sujo.
Vesti minhas roupas e sai às pressas, a madrugada me machucava, parecia querer me devorar. Encostei-me na parede de um prédio onde não havia movimentos, o choro foi algo inevitável. Chorava e deslizava pela parede até tocar o chão, onde permaneci. Mãos lançadas ao rosto, horas se batendo, outras horas coçando a cabeça. No final das contas, queria morrer, e que tudo acabasse daquela forma. Ela não sentirá saudades, nunca saberá do que aconteceu. Sim, não sou mais digno de viver. “Se não domino meus delírios também posso me enforcar”.
Não foi o caso, mas me atirei do alto do prédio, o mesmo que eu havia me escorado. A queda rápida, quase indolor, o chão se aproximava... Pronto, a morte.
O conhaque estava pronto para ser digerido, e a cena descrita acima passou em minha mente. Esfreguei meus olhos e balancei a cabeça. Aquilo tudo não passava de algo irreal. Devolvi a bebida de voltava à mesa, antes de ser colocado em minha boca.
- O que houve, fiz algo errado?
- Não, é que... Sabe, você é realmente muito atraente, mas não irei jogar minha vida fora por uma noite de prazer. – Vida, falei me referindo a minha esposa.
Ela me olhou assustada. Eu sorri e me apresentei, ela retribuiu e disse seu nome.
- Desculpe o meu mal jeito, prazer eu sou Mike.
- Stela, encantada.
- O dever me chama! Tenho que dizer a minha vida que eu a amo.
- Vida seria?
- Minha esposa Anna.
Ela sorriu. Peguei em sua mão, despedindo. E quando saia, tratei de passar em um shopping e comprar um rosa azul para entregar a minha vida. Senti que este era momento de usar um ensinamento de um amigo. Rosa azul sempre funciona. Está será a minha forma de agradecer por tantos anos me aturando. Na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza... O amor é dentre muitas outras coisas, a dança da eternidade.



· Sobre o post: Tragédia Fatal será uma história contada em partes, lembrando sempre dos dizeres de Jack O Estripador, “Vamos por parte”.